Resenhas

segunda-feira, 16 de março de 2015

..: Crônicas de sinapses adoravelmente sórdidas :..

Eu poderia ter colocado tudo com letra maiúscula, mas feriria os meus olhos. O título não pode ser todo com letra maiúscula, porque, afinal, está errado nas colocações da língua portuguesa.
“Títulos devem começar apenas com a primeira letra maiúscula, não toda a frase”. Isso pode ser um tanto marcante, mas convenhamos que fica feio, não?
Quero dizer, fica tão mais bonito tudo com letra maiúscula, então, por qual motivo um palhaço veio e disse que tem de ser apenas a primeira palavra com maiúscula?
O que é pior: escrever certo e ficar feio ou escrever errado e ficar bonito? É um problema!
Na dúvida, coloco o certo mesmo e incremento com um enfeite nas laterais, apenas para disfarçar o TOC... que confesso ser outro problema.
TOC [Transtorno Obsessivo Compulsivo], sem mais delongas, é bem autoexplicativo e já bastam várias linhas sem dizer absolutamente nada de importante.
É uma dificuldade enorme não conseguir condensar absolutamente nada, mas apesar disso, me pergunto: qual a graça de condensar tudo? Afinal, o que pode terminar de falar hoje, quando pode terminar só amanhã de manhã? Se não houver todas as explicações possíveis e inimagináveis para cada coisa que fazemos, qual seria, então, o sentido do universo? What is the meaning of life?
Por que terminar de falar amanhã, quando posso terminar só no mês que vem? Já tive diversas discussões sobre essa questão e cheguei à conclusão de que não devo diminuir de forma alguma tudo o que tenho a dizer; garanto que nada é simplesmente prolixidade, mas um monte de coisas sem sentido, entremeadas com muita lógica! Lógica de absolutamente nada, mas também funciona, porque continua fazendo sentido completo. Garantido. Devolvo seu dinheiro [e seu amor] em três dias se não for o caso.
Mentira; não devolvo. Não devolvo pelo simples motivo: não são todos que aguentam esse tipo de pessoa, que tem costume de explicar tudo [Sem empatia? Autismo? Síndrome de Asperger? SHELDON?]. Sim, já foi uma designação a minha pessoa [“Oh, é mesmo? Nunca poderia imaginar!”]
Apenas digo aos meus amigos: como são pacientes.
Muitos dizem que sou divertida... Antes palhaça do que sem graça.
Mas, afinal, o que é importante? [E lá vem mais uma quantidade infindável de linhas, muitas delas sem utilidade.]
Importante, quem sabe, seria dizer que sou a mais nova colaboradora deste tão adorável blog e gostaria agradecer às amigas pelo convite a tão sórdida, porém também adorável, criatura [no caso, eu]; mais sórdida que adorável, com toda a certeza.
É possível que escreva resenhas sobre livros que me apetecem [me “apetecem”, sim; não “gosto” de nada; fico “apetecida”, “extasiada”, “demasiadamente feliz como uma gazela saltitante das montanhas cobertas de neve”, mas jamais... “gosto”], porém o grosso mesmo da minha estadia aqui é escrever crônicas, contos ou pequenas histórias que possam tanto dar prazer aos meus dedos, quanto aos olhos de quem lê.
Só um adendo: tive certa dificuldade em colocar parágrafos ao fazer o alinhamento do texto [e mais uma vez aqui entra a métrica desagradável, correta e inflexível da construção da língua portuguesa]. Quando se faz o alinhamento do texto completo, os parágrafos perdem o seu próprio alinhamento, porque não somente a caixa de edição de texto não te permite colocar o parágrafo automático, como você tem de fazer o parágrafo manualmente, ou seja, com espaços! Dessa forma, o alinhamento do texto, que o acerta como um todo, faz com que os parágrafos pareçam uma gelatina durante o terremoto! Por fim: desisti de parágrafos. Só alinhamento. Que os céus tenham piedade da minha alma devota à língua portuguesa! ... E que os “remedinhos” do dia permitam que a doença fique controlada. Amém!
Um pequeno outro adendo [garanto que é o último]: o nome do quadro é “Crônicas de sinapses adoravelmente sórdidas”, quando na verdade era “Crônicas de uma mente adoravelmente sórdida”. Foi depois de escrever essa frase, apenas, que senti um calafrio na espinha ao perceber que “mente” rimando com “adoravelmente” daria uma grave descompensada na minha pessoa, que já nem tem problemas psiquiátricos o suficiente!
Rima... não dá. Sinto muito. Precisei mudar. De tal forma pensei: “Oh, o que poderia ser tão belo quanto colocar todas as sinapses cerebrais em uma completa zona de formigas relacionando-se com elefantes?”
“Sinapses” são, simplesmente, as transmissões de entre neurônios, as mensagens que passam um para outro, formando, assim, uma rede de pensamentos, informações e comandos. Partindo desse pressuposto, podemos lembrar sempre de que a formiguinha e o elefante se casam, e a lua-de-mel é um desastre! OU SEJA: o que mais poderiam ser todas essas ideias mirabolantes e textos, quem sabe, desconexos, senão sinapses neuronais completamente descompensadas? Sinapses, por definição, sórdidas! Não menos adoráveis, todavia!
A defesa está concluída!
Esse é o meu primeiro conto para esse blog e espero que gostem. Melhor: que lhes APETEÇA.
Falar sobre a minha pessoa não tem tanta graça e acredito que já tenha falado até demais. Creio que a parte mais interessante seja conhecer um pouco da imaginação de um par de neurônios em circuito.
Tenho dito.
Boa noite e boa leitura!




~~ * ~~


Miss Monica
Parte I
  

Determinadas questões talvez não fossem tão simples nos anos 80. Eram mais livres por um lado, porém mais reclusos por outro. Era um tanto desconexo, se fosse pensar, no que dizia respeito à sexualidade, tanto a escolha de sua própria, quanto ao simples tema “sexualidade”.
Ela não era nova, mas espirituosa; o que se poderia chamar de “experiente”... ou, simplesmente, “velha”. Não saberia dizer se era cômico ou extremamente desagradável ter a última alcunha como tratamento. Uma vez mais, por um lado era “experiente” em demasia para achar graça do termo “velha”; por outro, a sua espontaneidade, o seu senso espirituoso, considerava o absurdo dos absurdos.
Não era velha. Não era velha com seu cigarro por entre os dedos indicador e médio. Não era velha com sua mão de veias proeminentes, pendente do braço da cadeira de balanço.
E ergueu a mão para levar o cigarro a boca, quando se impediu no meio do caminho. Os olhos negros fitaram os vasos que se dispunham sob a pele envelhecida e levemente desidratada; caso as unhas não estivessem pintadas com seu bordô costumeiro, seria uma típica “velha” de meia idade.
Respirou profundamente e permitiu que a mão completasse seu caminho.
Os lábios cheios e enrubescidos, pela sua própria composição física, foram umedecidos pela língua e se permitiram acomodar o cigarro por entre eles, para que a fumaça fosse puxada. O impulso da tragada obrigou-a a cerrar os olhos e simplesmente se deixar levar por aquele momento tão breve, entretanto extasiante.
A retenção da fumaça durou pouco. Logo fora expulsa pelos lábios retraídos e sem sorriso. Há muito o cigarro não lhe dava mais o prazer que desejava subtrair dele. Havia a tentativa, entretanto sem resultados; havia se tornado um simples costume e nada mais.
Por ele, ela teria parado, mas nunca pareceu ser um problema. O cigarro a acompanhava havia mais de trinta anos, de forma que a sua companhia havia se tornado costumeira. Era isso: um costume. Péssimo costume.
O retorno a sua posição de conforto levou o cotovelo ao braço da cadeira amadeirada, deixando a mão de dorso enrugado praticamente na altura de seus olhos. Evitaria, com toda a certeza, mirá-la. Não havia necessidade.
As marcas do tempo eram impossíveis de esconder, apesar da beleza que carregava no corpo, no rosto e nos cabelos. Havia algo, ela sabia, que ainda o atraía, e usava incansavelmente dos mesmos atributos para dominá-lo, entremeá-lo em sua rede de desejo. De fato, ela era esperta. Era, portanto, experiente. Não?
Um curto sorriso pôde se fazer no canto de seus lábios ao pensar na maneira como a mirava. Ainda que o ambiente estivesse escuro, ainda que estivesse como uma idosa a se balançar suavemente sobre a cadeira, com o impulso do sapato alto sobre o carpete, ainda que estivesse só, ela o via com clareza. Via suas reações; via a maneira como dela se aproximava.
Aqueles eram fantásticos pensamentos para se ater, visto a falta do que fazer naquela ausência de trabalho. Substituída por uma jovem, que mal havia adquirido pelos pubianos e se apresentava especialmente ridícula naquelas calças rasgadas. Deprimente. Já poderia se considerar uma velha professora aposentada?
Seriam os outros países iguais à Itália ou seria ela apenas uma estúpida no meio daquele monte de calabreses pervertidos por mulheres novas?
Nem bonita era ela, aquela criança vitoriosa por ter largado as fraldas.
Mulheres novas e sem atrativo. Como eram patéticos.
As cinzas começavam a se acumular consideravelmente no topo do cigarro e prontamente o bateu contra o velho e sujo cinzeiro de prata na mesa que jazia ao seu lado. Tão sujo, tão sujo, mas com aquele valor sentimental imensurável. Talvez se seu pai não lhe tivesse presenteado na noite de seu casamento, provavelmente nunca mais teria fumado. Quem sabe não fosse uma forma de prestigiá-lo, afinal era um casamento que durava firmemente há trinta e dois anos.
Mesmo que pouco a fizesse sorrir, o pouco era simples, alcançável. Não havia exigências.
Não chovia havia meses e não conseguia compreender por qual motivo. Triste, porque a chuva lhe era um dos poucos prazeres. Sexo ao som da chuva e ao cheiro da chuva... Os aromas se mesclavam e aquela parecia toda a graça de se atracar por entre as cadeiras, poltronas e pés de mesa.
Partindo daquele maravilhoso vislumbre de cada dia, não era capaz de se arrepender de não ter tido filhos. Sua mãe teria de perdoá-la por não ter mudado de ideia.
Custou um longo momento para que pudesse se permitir ouvir o tom daquela voz grossa a chamá-la. Os pensamentos tomavam conta de sua mente e, novamente deveria ser perdoada, não havia sido ao primeiro sinal que o percebera ali. Por vezes divagava, tal pobre e velha professora de italiano!
Enchendo os pulmões e uma prolongada inspiração, dera uma última tragada no cigarro para, então, apagá-lo no cinzeiro. O soltar lento da fumaça tivera a mesma progressão do virar de sua cabeça para aquele que jazia de pé na porta.
Alto, magro, com aquele nariz francês fino e adunco; os mesmos olhos azuis que a haviam atraído trinta e seis anos antes. Ela nunca se importaria com os fios brancos que se projetavam sobre os negros remanescentes. Não se importava com ele, com sua aparência simples, com a ausência de perfeição; não era aquilo que tornava tudo diferente. Ademais, ela o achava fascinante e com uma beleza que ela quem tinha de ver; ninguém mais.
Aquele era um relacionamento, de fato.
A paixão poderia desaparecer, mas jamais a fascinação. Ela não era velha; era experiente.
E ela lhe ofereceu o mais digno e sincero sorriso.


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