Resenhas

segunda-feira, 27 de abril de 2015

..: Crônicas de sinapses adoravelmente sórdidas :..

Quem nunca ouviu a tão desagradável pergunta: “Me empresta esse livro?”
E quem nunca respondeu: “Claaaaaro! Me lembra de pegar!” SÓ QUE NÃO. A falsidade não poderia ser menor do que o cavalo de Troia!
Sabe QUANDO eu vou emprestar esse, aquele ou aquele outro para você? NUNCA. E não existe discussão.
Fazer a política da boa vizinhança é sempre importante, mas jamais sem perder aquele tom delicioso de ironia. Da mesma maneira que a pergunta não passa de uma grande piada, a resposta não poderia ser diferente, não concordam?
Emprestar um livro é um ritual de sacrifício, com bodes, chifres de antílopes, sangue daquele que pega o livro emprestado e, claro, o sacrifício de sua alma imortal. Se tiver algo a oferecer no momento também pode ser interessante, mas talvez determinados orifícios não sejam lá muito corretos de mencionar nesse post...
ENFIM, se você deseja um livro emprestado, lembre-se:
1.  Marque uma entrevista para conversar sobre o empréstimo do livro,
2. Tenha o certificado de qualidade “Pessoa Responsável” e certificado “Pessoa Gentil E Inteligente Perante Amigos Insanos E Possessivos Com Seus Livros” [favor trazer durante a sua entrevista de empréstimo de livro; lembrando-se sempre que deve ser papel de qualidade, timbrado, com assinatura sua e do diretor da universidade],
3.  Tenha um currículo vasto de experiências no que diz respeito a empréstimo de livros,
4. Pelo menos três cartas de recomendação de amigos, dos quais você pegou os livros emprestados [documentos reconhecidos em cartório],
5.  Esteja dentro do meu grupo de “Três Mais Importantes e Fiéis Amigos”,
6.Tenha um sistema doméstico de segurança contra crianças, animais domésticos, insetos grotescos ou qualquer criatura viva que possa se aproximar e fazer uma grande cagada no livro,
7. Tenha dinheiro [muito dinheiro] para pagar a terapia com um psiquiatra e um psicanalista que irão acompanhar seu surto psicótico paranoide, após eu ameaça-lo de morte e amaldiçoar toda a sua família, durante a entrevista, caso algo aconteça ao livro,
8. Seja profissional ou, ao menos, pareça profissional [não ache que com essa cara e atitude de Narcisa Tamborindeguy conseguirá um livro meu emprestado],
9.Caso não preencher qualquer um dos pré-requisitos acima, sua solicitação será automaticamente anulada.

Lembrando sempre que, mesmo com todos os pré-requisitos preenchidos com louvor, você haverá de passar por um treinamento agressivo e árduo [físico e mental] de treze semanas, além de provas escritas [múltipla escolha e discursiva] sobre os assuntos:
1.  Empréstimo de livros,
2. Como se comportar perto, próximo ou com suas patas imundas sobre o meu livro querido do coração,
3. Higiene e cuidados com livros,
4. Proteção nuclear contra todos os tipos de seres vivos [inclusive você] em um raio de quinze metros com relação ao livro emprestado,
5. Relações Internacionais com livros,
6. Relação ser humano-livro,
7. Relação afetiva com livros [capa dura, capa mole, livro de bolso com papel de jornal, etc],
8. Psicanálise comportamental das relações de respeito e consideração com os livros alheios e com o emprestador.

As provas escritas, treinamento e entrevista contabilizam 100 pontos e devem preencher, no mínimo, 100% da pontuação. Após as avaliações, aguarde até que seja entrado em contato para elucidação de seu resultado. Caso não seja contatado, bem... já sabe.
Boa sorte. O problema é só seu.




~~ * ~~



Empréstimo de Livro
Contos de Lulu II


E, então, ele estava sentado, distraído, perdido em seu próprio mundo. Não era de se estranhar. Não poderia ser diferente.
Imerso naquelas páginas, naquelas palavras, cada sopro de invenção era uma gota mais de imortalidade. Sentia-se poderoso, único e capaz de qualquer coisa. A ansiedade aumentava conforme as folhas eram viradas, a cada segundo desejando por mais e mais.
Ah, o virar das páginas... Um prazer inenarrável e único; insubstituível.
Era uma sensação fantástica de plenitude. Não havia nada que pudesse substituí-la. Não havia nada que pudesse ser tão atraente e ardiloso como um livro.
Perdido em cada parágrafo, deixara-se jogado sobre a poltrona giratória de couro atrás da mesa. Os pés sobre o assento, o corpo jogado para trás, com a cabeça recostada na maciez do móvel. Era a posição perfeita para que se perdesse.
A biblioteca não era das maiores, porém bastava ser aconchegante. Ainda que pudesse ter tudo o que desejava, um simples canto era o suficiente para que seu corpo sentisse o conforto de estar ali.
Nada poderia incomodá-lo; nada poderia atrapalhar o seu momento. Era o seu momento.
E, então, ela adentrou. Mais linda do que nunca. Apesar de não ter levantado os olhos para ela, tinha consciência de que nada teria mudado.
Os cabelos negros e longos escorriam como uma cascata por suas costas, ombros e seios, beirando sua cintura como se fosse beijá-la. O carpete abafava o som de seus saltos finos, ainda que não pudesse impedir o delicado balançar da cintura fina. Era perfeita e única para ele, ainda que não estivesse lhe oferecendo toda a atenção no momento.
Tinha plena consciência de que, eventualmente, ele a tiraria do sério; tiraria de seu estado lentificado e tomaria toda a sua atenção... Ainda não era o caso, todavia.
Ela caminhava de um lado ao outro da biblioteca, observando as estantes carregadas de livros, como se procurasse algo, uma esperança de vida nova naquelas capas novas e antigas. E, por fim, tirou um da prateleira. Os olhos azuis encheram-se com as inscrições de alto relevo, em ouro: ‘O Conde de Monte Cristo’, Alexandre Dumas.
Com uma inspiração prologada, Lilith tornou o seu corpo em direção a ele, aproximando-se de sua mesa e de sua paz. De alguma forma ela iria invadi-la e ele esperava por isso; até ansiava por tal.
Com todo o charme e delicadeza, afastando os lábios rubros um do outro, sorriu a ele e se permitiu pronunciar o que tanto desejava havia algumas semanas:
“Vou pegar esse livro, tá?” Disse ela, cheia de sorrisos no rosto, dando pequenos pulos de felicidade.
A trilha sonora fantástica em sua cabeça arranhou como um disco brutalmente abandonado por sua agulha e o rosto se ergueu. Os olhos arregalaram-se, embasbacado com tal pergunta, e não havia mais nada a fazer, que responder à altura do que lhe fora questionado.
“CUMÉ QUI É?!”
“Me empresta, homi! É rapidinho! Eu devolvo em dois dias!”
Ele ergueu uma sobrancelha e mostrou a cadeira do outro lado da mesa.
“Senta aí, filhinha...”
“Filhinha?” E foi a vez dela erguer uma sobrancelha, ainda que não tivesse se negado a sentar.
Marcando-o com todo o cuidado e amor, Lulu fechou seu livro e o colocou sobre a mesa, ao seu lado, logo apontando sobre ele, para que pudesse chamar a atenção de Lilith.
“O que é isso?” Foi a sua vez de perguntar em um tom leve.
“Um livro.” Respondeu, como se fosse algo óbvio.
“Não. Isso é um pedaço de uma coisa linda de meu Deusu.” Disse ele, observando o livro com um suspiro e felicidade nos olhos.
“... De quem?” Ela tornou a erguer a sobrancelha, fazendo conjunto à sua cara tão adorável e característica de bunda.
“Uma fagulha de prazer!” E ele colocou as mãos no peito, entoando sua alegria com os olhos fechados. “Um ponto de esperança em um buraco negro!”
“... Você tá bem?”
“Estou ótimo!” Disse, saindo de seu transe.
“Então, vai emprestar?”
“O que?”
“O livro!”
“Depende...”
“Do que?”
“Das suas intenções para com o meu filhinho.”
“OI?!”
“Quais são os termos?”
“Que termos?!” E ela foi ficando nervosa.
“Termos de compromisso, é claro!”
“... Você precisa de um termo de compromisso para me emprestar um livro?”
“Preciso. Como vou saber se você cuidará bem ele? Como vou saber que não fará orelhas?” E se encolheu todo. “Ai... orelhas...” Chegou até a coçar os braços, de tanto nervoso.
“Eu não farei orelhas nas páginas, Lúcifer!” Reclamou. “É só um livro!”
“Não, não, não! Não é só um livro! É um pedaço do céu de meu Deusu!”
“... É, você já disse.” E revirou os olhos, sem paciência, cruzando os braços.
“Não faça essa cara! Isso denota o tipo de comprometimento que você tem para com a nossa relação! Para com ele! Isso é um descaso, um absurdo, uma falta de consideração com Alexandre Dumas!” Disse ele, em tom de ofensa.
“Eu tenho consideração! Vou cuidar bem do seu livro!”
“Mas como vou saber que você vai cuidar bem dele?”
“Como vai saber que não vou cuidar bem dele?!”
“Da mesma maneira que não tem como você saber se eu cuidaria bem de um livro seu!”
“Se você não souber de que forma eu cuidarei do seu livro, eu direi a forma que estiver cuidado do seu livro, embalando como um bebê no berço!”
“Mas depende...”
“Do que, caceta?!”
“Dos termos!”
“Que termos?!”
“Ahhhh...” Ele sorriu. “Entããããão...” E abriu uma gaveta na mesa, vasculhando rapidamente, e retirando um bolo de papeis grampeados, estendendo a ela. “Toma.”
“O que é isso?” Perguntou, tomando os papeis nas mãos e olhando.
“É um pequeno contrato para você ler. ‘Termos de compromisso’.”
“Vinte e quatro folhas?!”
“Frente e verso! É pouca coisa, vai!”
“AHN?! E o que eu faço com isso?!”
“Você lê e assina!”
“Só isso?!”
“Assina, vai no cartório e reconhece firma, coloca em três vias, ficando uma com você, uma comigo e com o cartório. A minha via é a azul, por favor!”
“...”
“Ah! Se for mandar alguém trazer por você o termo assinado, não esquece de reconhecer em cartório também, afinal, como vou saber se é verdade?”
“... Oi?” Disse ela baixinho, com os olhos entreabertos e sonolentos.
“Ah, outra coisa!”
“Tem mais?!”
“Só mais uminha!” Fez ele um bico e um gesto com a mão de que era algo pequeno.
"... O que?”
“Preciso de um adiantamento.”
“Que adiantamento?!”
“Para pagar o matador, é claro, caso não devolva o livro no prazo máximo de uma semana! Ou você achou que eu quem iria pagar?!” Revirou os olhos. “Que ideia...”

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4 comentários:

  1. Hahahaha muito bom!! Importantíssimos os certificados de qualidade "Pessoa Responsável" e "Pessoa Gentil e Inteligente Perante Amigos Insanos e Possessivos com seus Livros", assim como ter o currículo vasto de experiências no que diz respeito a empréstimo de livros. XDD
    E Lulu? Hahahaha maravilhoso como sempre!!!

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  2. Confesso que não empresto meus livros para algumas pessoas, nem com o "Termo de Compromisso" assinado em três vias e registrado no cartório rsrsrs. Dou as desculpas mais esfarrapadas rsrs. Adorei o texto!

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