Resenhas

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

:: Resenha 202 :: “A terapeuta”, Gaspar Hernández




Sinopse:

Héctor Amat é um ator que sofre de ansiedade. Após testemunhar acidentalmente o assassinato de uma jovem, ele não se lembra dos detalhes do ocorrido e tem dificuldade de atuar de novo.
Para aliviar a ansiedade e recuperar sua memória, Héctor consulta a psicóloga Eugenia Llort, a terapeuta que o tratou logo após o crime, numa ligação de emergência. Essa relação, no primeiro momento profissional, vai se transformar em um relacionamento de dependência que atingirá limites incomuns: Eugenia atende Héctor todos os dias no seu consultório e vai assistir a todas as exibições de suas peças, nas quais interpreta Dick Diver, o personagem principal de Suave é a noite.
Mas como o seu próprio personagem, um psiquiatra que se apaixona por uma paciente, ele também, eventualmente, fica loucamente apaixonado por sua terapeuta.




A breve opinião de uma mente cansada [ao menos no dia de hoje]:

Apenas como justificativa da minha sonolência, mais especificamente do meu cansaço, estou retornando de um maravilhoso, belo e adoravelmente lindo de meu Deusu fim de semana, passado em Campos do Jordão e São Paulo [aka BIENAL].
Sobre a Bienal não entrarei em detalhes no momento, pois isso ficará para outra postagem; a grande questão é que, apesar do cansaço, decidi que faria logo a resenha deste livro! Apesar do pouco tempo que tenho nessa vida [“Oh, mundo cruel!”], ler e escrever permanece o maior prazer que tenho nessa vida e estou tentando [vejam bem, TENTANDO] mantê-lo, uma vez mais, como algo presente na minha vida. Não é exatamente simples, mas estou tentando de verdade!
Nada disso importa nesse momento! O que vale é a resenha desse tão adorável e diferenciado livro... para aqueles que gostam desse tipo de livro.


Digamos que não é algo que faça parte da literatura moderna, ainda que não seja um livro antigo. Em geral, autores, já há muitos anos no meio, não perdem as suas características de escrita e desenvolvimento de história, pois são coisas que claramente os define como autores, como “alguém diferente dentro daquele meio”. Independente da maneira como for, cada autor tem a sua particularidade [gostando eu ou você, não], algo que o destoa dos outros e o permite ser “aquele”. Dessa forma, de uma maneira usual, lendo um livro ou outro, podemos definir: “Esse autor não me agrada, por conta disso, disso e disso”. Por que fazemos isso? Porque, na verdade, nenhum deles perderá ou mudará a sua forma de escrever, a sua desenvoltura. E isso é bom! Claro que, de muitas formas, podemos aperfeiçoar, mas, a grosso modo, a base de tudo o que aquele autor conhece, se mantém; chama-se de “estilo”.
É simples, mas faz toda a diferença na hora de escolhermos se leremos ou não.
Esse, muito provavelmente, é o tipo de livro que a grande maioria não gosta: desenvolvimento mais lento, não tem um clímax tão efetivo e não é uma história de um romance intenso e incontrolável. Pode-se dizer ser algo mais suave, que acontece realmente no dia a dia; é uma grande reflexão de algo que acontece muito: a fascinação desequilibrada.
Não, esse não é um termo real, mas algo que inventei agora; vejamos se faz algum sentido.
A história do livro fala sobre um grande ator catalão, Héctor Amat, que não apenas começou a fazer terapia após presenciar um assassinato, como, ao longo do livro, vai se percebendo que seus conflitos, desconfortos e ansiedade não são apenas relacionados ao fato que o levou a iniciar sua terapia com Eugenia Llort, mas, igualmente, com relação ele mesmo. Apesar de ser um ator renomado, carregado de elogios nas costas, é uma criatura extremamente insegura no que diz respeito a ele mesmo, às pessoas que o rodeiam e às boas críticas que lhe são feitas. É um personagem profundo, que, pela mídia, é retratado como algo grande para a sociedade espanhola, porém, sob os panos, não passa de um homem qualquer com pensamentos de desconforto, insegurança e depreciação no que diz respeito a si mesmo.
Considerando que, na primeira parte do livro, o narrador onisciente gira completamente ao redor de Héctor Amat, dentro de sua mente, falando sobre seus desconfortos, a forma como interpreta seus personagens [no caso, o personagem específico, que estava interpretando naquela temporada, em Suave é a noite], como vê a si mesmo, faz com que desconsideremos as “pinceladas de informação” da mídia que falam a seu favor. O leitor passa, de fato, a acreditar em tudo o que Héctor Amat pensa de si mesmo e ignora o quão brilhante, na verdade, pode ser aquela criatura. Acabamos nos vendo envoltos em uma redoma de informações ruins, que, após tanto nos comprimirem com elas, acabamos por acreditar.
E não é assim que funciona? Não é assim que uma mentira – de tanto que é contada e ouvida – passa a ser verdade?
Nós, como bons seres humanos, acabamos por acreditar em nossas próprias mentiras e desconfortos. O mundo, na cabeça de Héctor Amat, é extremamente desconfortável, confuso e triste; deprimente, diria eu; não parece ter verdadeiros prazeres, exceto quando começou a realizar a sua terapia.
Talvez não tivesse alguém com quem conversar antes? Alguém que o compreendesse de fato? Mas, de certo modo, os terapeutas não estão ali exatamente com essa finalidade?
Vendo-se diante de uma mulher distinta, que de fato se dispôs a ajudar em seu transtorno de ansiedade diariamente, ele começou a vê-la com outros olhos. Claro que, para qualquer criatura comum, o acompanhamento diário de um paciente, que, teoricamente, continua mantendo suas atividades diárias, é incoerente, mas é o que essa psicóloga faz. Dessa maneira, Héctor Amat passa a imaginar o que ela poderia ganhar com aquilo, o que de fato poderia surgir de tal relação, que poderia ser uma tentativa dela em se aproximar... tudo isso por acreditar que apenas ela o entende.
De tal maneira, o personagem começa a envolver demais os pensamentos acerca dessa sua psicóloga, como se seu mundo girasse em torno dela, ainda que, essencialmente, não a conhecesse. Não sabia de sua vida pessoal, não estava com ela em outros momentos que não fossem naqueles designados a sua terapia.
Então, por que esses pensamentos? Por que ela permitira, se era algo tão estranho, que se vissem diariamente e tornasse aquela terapia uma frequência tão fora do padrão?
E algo mais acontecia ali: ela era uma grande terapeuta. Por que seu consultório estava tão vazio e, aparentemente, havia apenas ele como paciente?

A segunda parte do livro trata-se do narrador onisciente sob a perspectiva da psicóloga, Eugenia Llort, retratando seus momentos, pensamentos, desconfortos e conflitos, da mesma maneira que fizera com Héctor Amat.
Esse é um grande e brilhante ponto a ser colocado sob observação, porque mostra como até mesmo um profissional de saúde mental é capaz de se envolver com os próprios sentimentos e se deixar levar por eles. Erros e acertos são coisas variáveis no nosso dia a dia e a amostra incisiva sobre Eugenia Llort mostra que ela é tão humana e susceptível quanto o paciente ansioso Héctor.
É evidente, como todos sabemos, que, independente da profissão, mesmo que sejamos treinados para sermos coerentes em determinadas situações, lidar com situações adversas, a resposta é sempre diferenciada no que se diz respeito as nós mesmos. Toda a descrição da mulher é para provar exatamente o oposto de toda aquela perfeição, a qual Héctor tinha na sua cabeça.
E, não, isso não é spoiler! É, apenas, uma questão de lógica. É muito fácil nos sentirmos envolvidos por alguém que não conhecemos, pois existe todo um mistério que gira em torno daquela pessoa, toda uma imagem perfeita e estável, já que não se mostram os defeitos e as dificuldades do dia a dia.
Como Héctor Amat saberia o motivo pelo qual Eugenia Llort o acompanhava diariamente? Especulações da sua mente, pensamentos de desejo, solidão por relacionamentos anteriores fracassados? Tudo poderia ser um motivo para que aquele homem encontrasse um ponto de apoio na primeira mulher que encontrasse e não necessariamente a psicóloga. Pensaria esse dessa forma se não o acompanhasse diariamente?
Todas essas perguntas formam variáveis incontáveis, o que torna o livro muito mais interessante. Você vai desejando saber o que eles desejam um com o outro, qual o objetivo de cada um, apesar de uma clara lentidão nos acontecimentos.
Na verdade, o livro inteiro é uma grande reflexão por parte dos personagens, algo bastante interiorizado, de forma que o ponto não é algo físico e palpável ao longo do enredo. São seus pensamentos que tomam conta e seus desconfortos no que diz respeito a eles mesmos e aos outros que os rodeiam.
Impressionante como em poucas páginas, realmente muito poucas, o autor pôde claramente mostrar como nós funcionamos. Parece um maquinar extremamente sem graça quando visto de fora, mas, de uma forma grosseira, se colocarmos sob real perspectiva, se tivermos um pouco de empatia, podemos ver que é o tipo de reflexão diária que temos e que, com o passar das horas ou dias, pode se tornar extremamente conflituoso e insuportável de lidar.
E o desejo de um paciente por um profissional ou de um profissional pelo paciente? Oh, sim, isso existe e existe muito mais do que se possa imaginar.

Considero um livro muito bem escrito e bem pontuado; deixou bastante claro o seu objetivo. A única coisa que não me deixou muito contente, apesar de bastante coerente, foi o seu desfecho. Não era exatamente a MANEIRA que eu esperava, mas qual a graça de acontecer algo que se espera?
Talvez eu desejasse algo mais incisivo do que realmente foi, mas, suponho, o livro acompanhou a sua linearidade e, ainda assim, conseguiu deixar bastante evidente o que queria dizer. A linearidade, devo dizer, pode ser um problema para muitas pessoas, já que, como falei antes, não é algo intenso e expressivo demais, mas não deixaria de recomendá-lo.
Para aqueles que se interessam por uma coisa real e capaz de enganar à própria mente, com toda a certeza se interessará por esse livro!

Que venham mais mil!
Beijinhos!



Título: A terapeuta
Título original: La terapeuta
Autor: Gaspar Hernández
ISBN-13: 9788577344994
ISBN-10: 8577344991
Ano: 2014
Páginas: 208
Editora: Casa da Palavra
Compre aqui: Cultura | Livraria Travessa
Classificação:






Sobre o autor:

Gaspar Hernández nasceu em Girona, 1971, e é escritor e jornalista. Ganhador do Prêmio Josep Pla por seu romance El silencio, livro de ficção mais vendido na Catalunha em 2009, dirige e apresenta o programa L’ofici de viure (O ofício de viver) na rádio Cataluña.

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16 comentários:

  1. Olá!
    Que livro! Eu não conhecia e fiquei muito curiosa.
    Já me senti assim em final de livro, de não ser da maneira que eu esperava, ao mesmo tempo gostei de ser surpreendida.
    Um pouco que gostei muito do livro foi a segunda parte ser sob a perspectiva da psicóloga, mostrando também seus sentimentos. Fantástico!
    Já vai para minha lista!

    bjs
    Fernanda
    http://pacoteliterario.blogspot.com.br/

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  2. A capa não me atraiu muito, achei meio depressiva, mas a sinopse ficou muito boa, fiquei com vontade de ler o livro

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  3. Oi,
    Eu não gostei da capa, a garota com um olhar perdido e já ia começar a leitura depressiva.
    Chato quando o final não surpreende o leitor. Já aconteceu isso comigo, mas o meu problema foi que eu esperava demais da história e não foi nada daquilo.
    beijos
    Daya

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  4. É um livro um tanto dramático com uma pegada psicológica. Livros assim sempre nos prorcionam alguma reflexão.
    Adorei sua resenha, vc consegue passar a ideia do livro, sua opinião ao mesmo tempo e ainda assim não revela o principal. Interessantíssimo!!
    Adorei!
    Dica anotada.

    www.eupraticolivroterapia.com.br

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  5. Ola Bell lindona confesso que leituras mais lentas sem aquele ápice nem sempre me chama atenção, e acredito que no momento não leria, mas fico feliz que gostou do livro, da escrita do autor. Pena que o final não te surpreendeu. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  6. Oi Bell!
    Pessoalmente não curti muito a premissa desse livro não
    Não sou muito de leituras lentas, e esse jogo de narradores, provavelmente me deixaria confuso. Pra mim, é tudo muito complexo, e foge ao que eu realmente gosto de ler. Mas que bom que conseguiu levar a leitura sem problema. Pena esse final não agradar tanto :(

    Abraços
    David
    http://territoriogeeknerd.blogspot.com.br/

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  7. Olá, eu ainda não conhecia o livro mas não me interessei para realizar a leitura. Não é bem um gênero que eu procure para ler mas se tivesse me interessado, com certeza leria, só que não foi o caso :(

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    1. E sobre a Bienal!!! Como eu queria ter ido, estou vendo a minha linha do tempo em todas as redes sociais lotadas com fotos e mais fotos e fico chorosa kkkk mas também fico feliz por ter tantos autores talentosos no evento e por ver que os leitores estão correspondendo com as expectativas.

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  8. Olá!
    Eu não sou muito chegada a leituras mais lentas, mas confesso que me senti atraída pela premissa e tô bem curiosa sobre o que eles desejam um com o outro, qual o objetivo de cada um e como será o desfecho da história.
    Sua resenha ficou maravilhosa e me convenceu!
    Dica anotada!
    Beijos!

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  9. Olá, tudo bem?

    Não conhecia o livro, foi bom conhecer mais um título, mas infelizmente não é uma leitura que faria no momento. Quem sabe mais pra frente..

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  10. Oie
    nossa, eu não congecia o livro mas com certeza já esta na minha lista de desejados, eu adooooreeei esse enredo, título e capa, muito linda sua resenha

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  11. Que livro é esse!
    Apesar de todos os seus pontos de aviso, o livro me chamou muito a atenção justamente pelo fator humano, claro que não é uma leitura empolgante, mas com certeza acrescenta muito. Dica anotada.
    Bjim!
    Tammy

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  12. Ai, vamos falar a verdade, eu dormi só com a sinopse KKKK, sua resenha está maravilhosa mas o livro me deixou seilá, entediada sabe ? como você mesmo disse ele não tem grandes acontecimentos e é bem lento, não sou muito fã de livros assim, então irei passar a dicca

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  13. Hi baby, tudo bem? esse parece ser um livro interessante e cheio de camadas, o fato dele ser ator também implica muito no interesse que tive pelo livro, sua resenha me instigou bastante também, não é uma leitura que farei agora mas está anotado ;)

    Lilian Valentim
    http://speakcinema.blogspot.com.br/
    beijinhos

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  14. Oi...
    Não conhecia esse livro, sua resenha está muito bem feita, mas nada nessa história me chamou a atenção então ele não seria uma escolha de leitura normal que eu faria, quem sabe um dia.

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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  15. Olá!

    Não conhecia a obra e achei bem interessante essa premissa. Gosto de livros assim que, além de nós fazer pensar nós ajudar com algum problema. Sei que ansiedade não é um problema novo, porém ainda é pouco "abordado" e pouquíssimas pessoas falam sobre, por isso mesmo com suas ressalvas, estou curiosa para conhecer mais da obra.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com.br

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