Resenhas

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

:: Resenha 365 :: "O Ceifador", Neal Shusterman


Sinopse: Primeiro mandamento: matarás.
A humanidade venceu todas as barreiras: fome, doenças, guerras, miséria... Até mesmo a morte. Agora os ceifadores são os únicos que podem pôr fim a uma vida, impedindo que o crescimento populacional vá além do limite e a Terra deixe de comportar a população por toda a eternidade. Citra e Rowan são adolescentes escolhidos como aprendizes de ceifador - papel que nenhum dos dois quer desempenhar. Para receberem o anel e o manto da Ceifa, os adolescentes precisam dominar a arte da coleta, ou seja, precisam aprender a matar. Porém, se falharem em sua missão ou se a cumplicidade no treinamento se tornar algo mais, podem colocar a própria vida em risco.

Que livrão! Vamos logo abrindo os trabalhos falando de forma clara e direta que O Ceifador é um livrão daqueles, livrão da porra, para ser mais exata! Sabe aquele filme O Exterminador do Futuro? Então, e se o John Connor estivesse errado e o mundo dominado pelas máquinas não fosse ruim? E se as máquinas, ao controlar o poder no nosso planeta, não escravizasse os humanos e sim elevasse a nossa qualidade de vida em tal ponto onde não tem mais mortes? Imaginou? Neal Shusterman imaginou esse mundo e mesmo no meio dessa aparente utopia, ele conseguiu enxergar onde a corrupção deixaria suas garras. E se você chutou que no meio da perfeição o podre seria a humanidade, acertou em cheio!

Imagine um mundo onde a tecnologia, mais especificamente a nuvem de dados, evoluiu tanto que ganhou consciência própria, e com essa consciência, ela foi aos poucos reorganizando o mundo, melhorando a vida de todos ao ponto que ninguém mais morre por doenças ou atos de violência. Não existem mais acidentes de trânsito e nem de aviões, ou mesmo crime. A Cúmulo-nimbo, essa nuvem evoluída, criou a sociedade perfeita e tem total controle sobre ela. É a Cúmulo-Nimbo que diz onde uma estrada vai ser construída, distribui as riquezas, acabando com a miséria apesar de ainda ter pessoas vivendo de forma mais humilde, por escolha. É claro que se ninguém mais morre, a população agora é virtualmente imortal. Uma pessoa pode viver tantos anos quanto quiser, podendo inclusive, se rejuvenescer, e se ela sofre um acidente mortal, pode ser revivida como se nada houvesse acontecido. Então, com isso, teremos um problema: como abrigar tantas pessoas se agora não existe mais morte?

A nossa missão é, no mundo moderno, o que mais se aproxima de uma missão sagrada. Talvez seja por isso que devemos, por lei, manter um registro. Um diário público, explicando àqueles que nunca vão morrer e àqueles que ainda não nasceram o motivo por que nós, seres humanos, fazemos o que fazemos. Somos instruídos a anotar não apenas nossos atos, mas também nossos sentimentos, porque deve-se saber que temos sentimentos. Remorso. Arrependimento. Sofrimentos grandes demais para suportarmos. Porque, se não sentíssemos nada, que espécie de monstros seríamos?

É criado então, os Ceifadores, que são pessoas que tem como missão, matar as outras, e quem morre pelas mãos de um ceifador não pode ser revivido pela Cúmulo-Nimbo, inclusive, para se manter a idoneidade da Ceifa, esta funciona de forma totalmente separada da Cúmulo-Nimbo, que não pode interferir nos negócios dos ceifadores. Então, temos um mundo sem mortes, nem mesmo pela idade e pessoas cujo trabalho é matar. Nesse universo, os Ceifadores são ao mesmo tempo temidos e admirados, afinal, eles podem conceder imunidade por um ano para pessoas simplesmente coletando o DNA delas. 

Nada encobriu o sol, não houve nenhum indício da chegada da morte à sua porta. Talvez o universo devesse oferecer esses avisos, mas os ceifadores não eram muito diferentes dos cobradores de impostos no esquema geral das coisas.

Citra e Rowan são dois adolescentes que, cada um de um modo, cruzam o caminho do Ceifador Faraday e ele acaba escolhendo os dois para serem treinados como aprendizes de ceifadores, e durante um ano devem morar com o ceifador e aprender mais sobre o oficio de matar. Os dois não poderiam ser mais diferentes. Citra vem de uma família amorosa e estruturada de pai, mãe e irmão mais novo, já Rowan vem de uma família desfuncional, com um sem número de pessoas morando na mesma casa, se restaurando por vaidade ao ponto da avó dele estar mais nova que a mãe. Rowan se sente como uma alface, uma parte sem sabor no meio daquela confusão.

A esperança diante do medo é a motivação mais forte do mundo.

E se até agora você ainda não se convenceu em ler O Ceifador, achando que se trata de mais uma distopia adolescente com casal apaixonado e por alguma razão, lutando para poder ficar junto... esquece! Lembra que eu falei sobre corrupção? Neal conseguiu em um livro infanto-juvenil, abordar a corrupção humana com uma riqueza de detalhes que, olha, só por isso já vale a leitura!

Jogos de poder podiam ser coisa do passado em outros âmbitos, mas ainda estavam muito vivos na Ceifa.

Pois é, a Ceifa está corrompida, ou melhor dizendo, dividida. De um lado existem os ceifadores da velha ordem, aqueles que acreditam que devem matar com dignidade, com respeito à vítima e aos que ficam. Do outro lado existem os ceifadores que não querem mais seguir os mandamentos da Ceifa, ou seja, que defendem mortes coletivas, cruéis, sem uma cota mínima anual e acima de tudo que sentem prazer ao matar. 

Não somos os mesmos seres que fomos no passado.
Então, se não somos mais humanos, o que somos afinal?

Durante o treinamento com Faraday, Citra e Rowan vão ser literalmente jogados no meios dessa intrincada trama política, onde a morte é apenas um detalhe e o que começou como a possibilidade de ser ou não um ceifador, se desdobra em uma questão de vida ou morte, onde não se pode confiar em ninguém! Nem mesmo em quem se ama!

Todos tinham como certo que os ceifadores seguiam os mais elevados princípios morais e éticos. Eles eram sábios em sua conduta e justos em suas escolhas. Mesmo os que buscavam a fama eram considerados merecedores dela. A ideia de que alguns ceifadores poderiam não ser tão honrados quanto Faraday desagradou os dois aprendizes.

Que livrão sensacional! Eu não tenho palavras para expressar o quanto esse livro é envolvente, o quanto a história é complexa, mas ao mesmo tempo não é difícil para o leitor acompanhar uma vez que ela é destinada ao público infanto-juvenil. Neal criou um mundo perfeito, para desmonta-lo camada por camada. Os Ceifadores divididos entre aqueles que tem honra e aqueles que são assassinos. A Cúmulo-Nimbo desenvolvendo uma sociedade perfeita, mas a população que tem tudo, mas não tem mais motivação, estão estagnados, apáticos (quando for ler, observem com atenção o amigo do Rowan, ele é um exemplo perfeito dessa sociedade estranha).

Não eram exatamente amigos — nunca tiveram a oportunidade de desenvolver uma amizade antes de iniciarem o treinamento. Eram parceiros; eram adversários — e Rowan achava cada vez mais difícil entender o que sentia por Citra. Tudo o que sabia era que gostava de vê-la escrevendo.

Não tem o que falar sobre a escrita do Neal Shusterman. Mega premiado, ele sabe o que está fazendo e O Ceifador já foi premiado internacionalmente e vai virar filme pela Universal! Sua distopia pode ser apreciada tanto pelos mais novos, que vão torcer pela Citra e o Rowan e uma expectativa de romance proibido entre eles, quanto pelos mais velhos que vão se deliciar com tantas referências às mazelas sociais. Eu adorei que os capítulos são sempre precedidos por pedaços dos diários que os ceifadores têm que escrever, aproximando o leitor de alguns ceifadores importantes para a trama como Faraday, Currie e Goddard. Talvez o único ponto mais fraco do texto, é as personagens serem bidimensionais, quem é bom é bom, quem é mal é mal, salvo algumas exceções e isso nem de longe tira o brilho do livro. 

O ceifador Faraday tinha razão: alguém que gosta de matar nunca deve ser um ceifador. Isso vai contra tudo que os fundadores queriam. Se é nisso que a Ceifa está se transformando, alguém precisa impedir. Mas não eu. Porque acho que também estou me transformando num monstro.

Tem que ler! Tem que ler o quanto antes, super recomendo para você, para o seu filho, irmão mais novo, sobrinho caçula… enfim, é um livro que tem que ser lido! O segundo livro vai sair agora em janeiro nos Estados Unidos e estou rezando para ele não demorar para chegar no Brasil. A boa notícia e que a Seguinte não tem histórico de abandonar séries e nem fazer a gente esperar muito entre um livro e outro. Se eu vou ler a sequência? Assim que sair, porque o final de Ceifador… Que final foi aquele, senhor Shusterman? Como o senhor brinca assim com o meu coração?


Nome: O Ceifador
Série: Scythe # 1
ISBN-13: 9788555340352
ISBN-10: 8555340357
Ano: 2017 
Páginas: 448
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Classificação: 

Sobre o autor: 

É autor de vários romances premiados, roteiros para filmes e para animações de TV. Nascido e criado no Brooklyn, em Nova York, atualmente mora no sul da Califórnia. Em 2017, O ceifador foi escolhido livro de honra do Michael L. Printz Award, o principal prêmio de literatura jovem adulta dos Estados Unidos.

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